“Só me interessa o que não é meu.Lei do homem. Lei do antropófago...
Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristrianizados, é conta ela que estamos agindo. Antropófagos”
Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago, 1928.
Final de tarde. Barravento. Vista maravilhosa para o Farol da Barra, palco do carnaval baiano, motivo de orgulho dos nativos da terra da felicidade.
Defronte ao gole de chopp, depois de uma garfada de carne seca desfiada com farofinha, qualquer olhada dá de frente com a imagem sorridente de uma das rainhas da festa, Daniela Mercury. Ocupando toda a parede lateral do Hotel Monte Pascoal, ali estava a reprodução da capa de seu novo CD/DVD intitulado “Canibália - ritmos do Brasil”.
Será a Bahia, pois, a própria “Canibália”, terra da alegria canibal?
Recorrendo ao comodismo da wikipédia, vê-se que “canibalismo é um tipo de relação ecológica em que certas espécies de animais se alimentam de indivíduos da mesma espécie. Segundo alguns investigadores, essa prática terá resultado da evolução das espécies, com o objetivo de eliminar os indivíduos menos aptos, por exemplo, provenientes de uma ninhada em que alguns filhotes saem dos ovos defeituosos ou imaturos”.
A enciclopédia eletrônica ainda anota que se você procura pelo canibalismo entre seres humanos, veja Antropofagia.
Fazendo as contas, não dos chopps, que foram dois ou três, mas da história recente envolvendo o ano que chega, não demora para lembrar que em 2012 se competam 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, marco simbólico do modernismo inaugurado entre os falantes culturais da terra de Macunaína.
Como a beldade baiana já homenageou a tropicália, agora seria a vez de reverenciar o espírito antropofágico nacional, variante do canibalismo mais do que nunca elevado às glórias das grandes realizações humanas.
O pior é que as fraturas mentais e as quebras do mais elementar bom senso têm comprometido de tal forma a possibilidade de algum discernimento inteligente que tudo passa a significar o seu próprio oposto, num carnaval de sentidos e significações contraditórias que confundiriam até o mais sanginário canibal.
Ora, se canibalismo parece se coadunar com o objetivo “natural” de eliminar os indivíduos menos aptos de uma mesma espécie, trazer ao plano cultural das produções forçadas e turbinadas por cifrões homenagens a uma “canibália” nacional só pode significar um canibalismo da própria plataforma politicamente correta que anima a mediocridade reinante.
O canibalismo cultural, epítome da “canibália” mercuryana, seria ele próprio o paradoxo e o desmascaramento da festejada multidiversidade democrática, onde todos os ritmos e possibilidades teriam lugar e expressões garantidas. Afinal, quais seriam os índividuios e práticas culturais menos aptos a serem canibalizados na catarse medonha?
Ou será ainda que a própria concepção idealizada de canibalismo, tanto em seu sentido biológico como cultural, não estaria comprometida com uma inversão da própria perceção da realidade tal como ela se apresenta? Não seriam a antropofagia e a “canibália” exemplos de regresões drasticamente humanas, o inverso exato de qualquer evolução real de um ser chamado homem?
Como recorrência de antigos canibalismos, o carnaval da Bahia não esconde sua impossibilidade de saciar o grito do queremos mais. O materialismo hedonista, hipostáse de antropofagias arcaicas, por mais que queira, não consegue devorar a metafísica de fundo de todos os desejos.
A foto gigantesca de Daniela traz marcas indeléveis do que causa o tempo no semblante de qualquer pessoa, mesmo de uma pop star muito bem produzida e maquiada. Talvez tenham passado despercebidas para os marqueteiros da trupe festiva, mas aquelas marcas devoram qualquer orgulho por um canibalismo passado ou resgatável na imaginação alienante de alguns.
O tempo, ao deixar suas marcas, marca de morte o morticínio simbólico ou não dos canibalismos de toda a espécie. Estes recorentes saudosismos, como se fosse possível retardar o envelhecimento para frente, lembram a pretensão tola, porque impossível, da baía em querer canibalizar (ou seria anticanibalizar?) o mar.
A Bahia, como qualquer baía, não pode devorar o oceano.
Miguel Brito




