Jacques Lacan em certa passagem de seu Seminário, precisamente nos capítulos em que trata da questão da ética na psicanálise (*), lembrando Freud e em suas divagações sobre a morte de Deus, chega a dizer (desdizer?) que o mandamento cristão do amar ao próximo como a si mesmo (conseqüência ontológica do amar a Deus sobre todas as coisas) acaba se constituindo como um interdito, uma impossibilidade em termos, dado o seu caráter quase que desumano.
Mordendo ou não a isca, o discípulo do mais distanciado dos psicanalistas toca numa questão crucial da mensagem cristã. Afinal, por que teria Cristo se limitado a pregar o amor ao próximo e não ao distante, ou a todos os distantes também?
Como até os ateus e autônomos em geral admitem a inteligência do nazareno, parece razoável supor que entre o próximo e o distante há uma distância que corresponde exatamente à hybris humana, à desmesura com que se pretende preencher o vácuo entre o homem e seu criador.
Cristo, então, teria dito algo como comece pelo próximo possível, o inverso processual do comando revolucionário que prega a ruptura e a transformação pelo e para o distante da utopia desejada.
O cristão é chamado à conversão interior que lhe permite de fato amar o próximo, pessoa concreta e presente como ele. Já o revolucionário acredita ou quer acreditar num amor por uma humanidade distante e impessoalmente concebida, sem nenhuma conversão pessoal ou reforma íntima de sua parte: suprime a distância tomando um distante fictício como ponto de partida ou de chegada.
Ora, o intervalo ontológico entre o próximo e o distante é a chave de compreensão de todos os mistérios, porque abriga o mistério insondável à inteligência humana.
O que ocorre, assim, pela absoluta incapacidade de compreensão e aceitação do intervalo inapreensível, é o sempre e recorrente resvalo pela caricatura e macaqueação discursiva em todos os seus níveis.
O carnaval, por exemplo, ou o seu discurso do gozo da transgressão massificada, turbinado por interesses econômicos (próximos ou distantes) cada vez mais sedentos e insaciáveis, ele próprio uma caricatura do que foi em sua origem de festejos pagãos da antigüidade pré-cristã, é também a projeção inconsciente daquela reflexão lacaniana em que se coloca a recorrência da (im)possibilidade do amor ao próximo como a si mesmo.
Ali, cercados por tudo e por todos, mais do que juntos e apertados em cada metro quadrado da avenida, ninguém é mais próximo ou distante de ninguém, todos são outros de si mesmos, arrancados prazerosamente dos limites de suas consciências. Todos são levados a um outro de si, ao distante de cada um, onde ninguém é nada a não ser a caricatura de um alegre triste falsamente liberado do restante dos dias de uma vida sem sentido.
É tão séria a vacuidade da distância, absolutamente incompreendida por qualquer consumidor de álcool ou cocaína, que mesmo os que aparentemente ganham com a folia milionária precisam sair correndo de uma cidade suja, triste e abandonada, para então relaxar e curtir os lucros auferidos naquela zorra sem limites.
Não adianta o escape pós-confete. A distância acompanha cada próximo incapaz de compreender o comece por aqui. Nem Lacan suspeitou da serpentina em que se enrolou. Seu discurso, como adereço de antigos carnavais, distrai, enfeita, e no final é apenas papel enrolado no chão de estrelas cadentes.
Tirania não é apenas um conceito político e distante dos dias em que se acredita viver numa democracia carnavalesca.
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O iraniano condenado à morte pela sua conversão da fé islâmica ao cristianismo ilustra tragicamente o dilema humano da resistência àquele que significa o resgate histórico da distância entre o criador e a criatura.
Com Cristo, o distante absolutamente outro se aproxima de forma absoluta e definitiva, e isto é o fim de todos os carnavais e ensaios provisórios.
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Segundo Houaiss, tirania também pode se definir pelo poder que certas coisas exercem às vezes sobre o homem. O poder da comunicação e da manipulação midiática, no bojo das grandes experiências de massa, caberia então na elasticidade da expressão tirânica.
Indo além, num esforço de uma não autorizada arqueologia das distâncias semânticas, é possível,
a partir da origem do prefixo tir(ar) – quem sabe, “de uma base iraniana tír, der. da raiz i.-e. *(s)tig- 'agudo, penetrante'- e dos radicais an(a) – “do adv.prep.gr. aná 'no alto, em cima; no alto de, sobre; de baixo para cima; para trás; ao contrário; por, através de; durante' ” e (-)ânimo e anim(i/o)- “antepositivo, do lat. anìma,ae (equiv. semântico do gr. psukhê) 'sopro, ar', depois 'sopro de vida, alma'; anìmus,i 'princípio espiritual da vida intelectual do homem' (correspondente ao gr. thumós) opõe-se a corpus e a anìma; anìmus (masc.) é o princípio superior e anìma (fem.) é submissa a ele”,
inferir que tirania também se reporta ao poder de tirar do homem a distância entre o seu alto e o seu baixo, entre seu espírito e o corpo - tirar-lhe a alma, ainda que sob a promessa não cumprida de uma felicidade que não pode lhe ser entregue.
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(*) O Seminário, vol. VII – Ética na psicanálise, de Jacques Lacan (Jorge Zahar Editor, RJ, 2008, 2ª edição)
Miguel Brito





