domingo, 29 de janeiro de 2012

Drogas on line

Vício, dependência, uso ou a inversão retórica em uso(sem) dependência (e sem) vício


Com o mote do “escolha viver sem drogas”, o governo baiano, em parceria com o governo federal, lançou uma campanha publicitária abrangendo praticamente todas as modalidades de mídia. Até os abrigos de ponto de ônibus entraram na programação e já estampam as peças promocionais com artistas e celebridades da terra.
A criatividade não poderia ser maior e a turma do marketing institucional mandou ver. O chamado gira em torno das palavras-chave do mundo das drogas.
Colocar Margareth Menezes se declarando “viciada”, isto impresso em letras proeminentes (na TV, equivale a uma primeira tomada), revelando, então, em subtítulo com caracteres mais acanhados (o segundo momento na imagem televisiva) que se trata de uma viciada em música, deve ter dado picos de realização profissional aos marqueteiros orgulhosos e bem remunerados por mais um trabalho candidato a premiações mil.
Melhor ainda é que na mesma campanha também se pode ver Bel, do Chiclete com Banana, se declarando dependente...de carnaval, ou ainda o showman Jorge Portugal se “revelando” usuário...de livros. É o máximo! Só falta combinar com os drogados e traficantes para que participem também da campanha, caso se sintam alijados da festa.
Só os marrentos e inconvenientes fariam uma pergunta ou algo próximo a uma extemporaneidade do tipo: afinal, a campanha ajuda mesmo a combater o consumo e o tráfico de drogas?
Talvez a campanha contemple também a elaboração de estatísticas e de gráficos, e assim tudo poderá afinal se resolver. Tomara que sobre algum recurso para o sempre necessário (re) aparelhamento da polícia e manutenção das casas de acolhimento e recuperação dos... (qual o melhor termo?) que têm maior afinidade com o consumo das drogas (drogas? Ou “substâncias socialmente execradas”, para não chocar as crianças na sala?)
Por ora, sobra a evidência de que as expressões essenciais da campanha – viciado, dependente, usuário - podem até ajudar a entender melhor a cabeça pensante do tipo politicamente correto.
De saída, dá para arriscar a hipótese de que a utilização de termos angulares no discurso que aparentemente pretende desconstruí-los pode, na verdade, reforçar a própria realidade que se diz objeto de transformação. O recurso gráfico (nos matérias impressos) ou a utilização das cenas em duas tomadas (na televisão) podem está, sutilmente, adocicando, suavizando, naturalizando, acomodando, enfim, a dureza e a dor encerradas no viciado, dependente e usuário de drogas de verdade.
Toda esta plasticidade reconfiguradora de uma realidade nada feliz, transfigurada numa esperança imagética, se revela ainda mais eficaz quando conta, então, com a participação, consciente ou não, de artistas e celebridades, sobretudo quando de famosos vinculados diretamente ao fenômeno midiático do carnaval e da “baianidade”.
Na verdade, a utilização propagandística de palavras-força – vício, dependência e uso – lembra o esquema teórico muito bem desenvolvido pelo Prof. Olavo de Carvalho quando se debruça sobre o que chama de “mentalidade revolucionária” – mais do que um mero padrão histórico, um conjunto articulado ou articulável de ocorrências verificáveis que ajudariam a entender muito do que tem se sucedido no ocidente desde pelo menos o século XVI.
Pois bem, segundo Olavo de Carvalho, a mentalidade revolucionária se caracterizaria, sobretudo, por um nítido processo de inversão na percepção da realidade, um padrão, portanto, de inversões que se desdobrariam na inversão da responsabilidade moral, inversão da relação sujeito-objeto e inversão na ordem do tempo.
De fato, a recorrência discursiva ao viciado em...(qualquer coisa) não esconde a ênfase retórica no vício – agora ressignificado e, portanto, reavaliado positivamente – em oposição, talvez, à virtude, esta coisa antiquada e reacionária. Aí também se encontraria um exemplo vivo de inversão da responsabilidade moral, na medida mesma em que inverte a polaridade vício-virtude.
Da mesma forma ocorreria com as duas outras modalidades de inversão: ressignificado o vício, a cobrança social sobre a dependência do viciado em relação às drogas assume uma nova feição, positivando – por que não? – a dependência em si de qualquer coisa (como o carnaval, diz Bel, ou como as drogas, sussurram nas entrelinhas infernais os porta-vozes de Mefistófeles).
Todo o processo de inversão revolucionária se completaria, então, com a circularidade na ordem do tempo, uma das formas de inverter a temporalidade linear da vida vivida. A melhor imagem para se perceber tal inversão é sugerida mesmo na variante do usuário de livros: a sutileza da remissão é inegável. Livros são, por si mesmos, memória cristalizada, tempo espacializado, materializado, capturado, possuído. Usar o livro, usar a memória e o tempo cristalizados sugere a suprema ambição humana, e por isto revolucionária, de (re) possuir o que já estaria possuído (o tempo já capturado). Não existe maior inversão na ordem do tempo do que a ilusão de recapturá-lo e mantê-lo à disposição dos desejos humanos.
A ordem, pois, é relaxar. A campanha em torno do lema do escolher uma vida sem drogas no fundo acaba relaxando qualquer eventual tentativa de se discutir seriamente a questão das drogas e daqueles com elas direta ou indiretamente envolvidos. No final, sobra o desânimo (satisfação para outros) diante de mais uma droga que se faz com dinheiro público, ele próprio uma droga que vicia dependentes interesses privados.      

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A campanha local se insere na lógica daquela levada adiante pelo Planalto, sob o comando geral que faz dizer “crack, é possível vencer”.
Ninguém explica porque só o crack deva ser vencido. A maconha e a cocaína, por exemplo, não devem também ser combatidos? Desculpa, quanto à maconha, o ex-presidente FHC já assumiu a defesa pelo mundo afora. Falta um garoto-propaganda para a eventual defesa da cocaína.
Pensando bem, o slogan que foca no combate ao crack enfatiza a necessidade de se combater justamente a cocaína degenerada, de má qualidade, suja, adulterada. Será que algum gênio da propaganda subliminar sugeriria, nas entrelinhas, quem sabe a defesa sutil da cocaína pura e de boa qualidade?
Fato é que as campanhas são detonadas em uníssono, com ações simultâneas na Cracolândia em São Paulo e no Rio de janeiro, tudo com as trocas de insultos e acusações mútuas entre os governistas e seus opositores de mentirinha. Todo mundo sabe que a utilização politiqueira de todo e qualquer assunto, mesmo daqueles que envolvem a saúde, a integridade e a vida das pessoas, é uma droga ainda mais potente e de uso bastante arraigado neste país intoxicado pela hipocrisia.
A chamada grande imprensa faz o dever de casa. Reverberando o tema não ousa tocar na ferida da produção e da distribuição da droga no território nacional.
Ano eleitoral é uma droga!
 
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O trocadilho em torno do “vício, dependência, uso ou a inversão retórica em uso(sem) dependência (e sem) vício” dá a medida da pretensão presente em muitas pensantes cabeças deste mundo dos falantes e de seus discursos. Seria mais uma droga a ser vendida: a ilusão de um uso controlado das drogas, sem dependência e sem vício, com o mínimo de baixas que as políticas de redução de danos insistem em oferecer ao distinto público.
Bem pensada, a lógica interna do programa de televisão Big Brother, em sua formatação globalizada e estupidificante, também serve como metáfora singular para o modelo operacional da utopia de uma sociedade em que as drogas seriam liberadas para seu uso sem dependência e sem vício.
Na casa mais vigiada do país, segundo o animador do Big Brother Brasil, os participantes, ininterruptamente monitorados pelas câmeras que tudo vêem, fazem uso controlado de toda a sorte de prazeres e mimos idiotizantes, com a promessa ainda mais gratificante do sucesso (esta droga tentadora) e dos prêmios de toda a sorte.
Aqueles que aprendem mais rapidamente os truques da “convivência” em grupo, os que se safam das armadilhas das relações interpessoais e os que se afinam com o público entorpecido pela ilusão de poder (como se ativo fosse no empacotamento final do que lhe é servido), são os maiores vencedores e exemplos a serem seguidos por milhões de telespectadores tragados pela big droga – legal, divertida, gratuita e diariamente entregue em cada domicílio de usuários passivos.
A alienante hipocrisia dos bem sucedidos falantes supera em muito as toneladas de drogas ilícitas despejadas no mercado emergente nacional.
As emissoras de televisão, no Brasil e no mundo afora, ao mesmo tempo em que participam alegremente de campanhas educativas de combate ao consumo de crack ou cocaína, também servem aos seus usuários, por meio, sobretudo, dos programas de reality show, não só mais uma droga que os aliena diária e continuamente: ensinam subliminarmente também o modo operacional “seguro” de como consumi-la - a droga que distribuem, e, quem sabe, por osmose colateral, qualquer outra que o mercado ofereça.                                                


Miguel Brito

Branquinho

 
Agora sim. Nada como uma boa lata de tinta branca, e o museu está já entrando no ritmo. Está ficando uma belê... beleza, tudo branquinho! A rainha da festa vai aprovar.
Até as janelas caindo aos pedaços já foram removidas, enquanto os operários em cima dos andaimes agilizavam os trabalhos.
Pena que o branco suje tanto e o estrago chegue rápido.
Paciência. Em Brasília, e em outras cidades fincadas no alto, o branco suja e estraga bem mais.
Aqui em baixo nós é pobre, mas é limpinho!
Manda ver que o branco vai rolar em cima e em baixo.

                                                                                                                                             

domingo, 22 de janeiro de 2012

Carne Viva

                 

                              “Entre o rosto desfigurado de Geralda
                                   e o corpo sarado de Monique”


A semana foi marcada pelo destaque das páginas policiais – mas toda a semana ocorre o mesmo – com o embate mercadológico entre a Globo e a Record, numa disputa que envolve milhões em cada ponto de audiência.
Fausto e Mefistófeles. Ninguém sabe ao certo quem serve a quem, mas a aparente disputa entre os dois é também a força de sua aliança. No meio, dois corpos: um desfigurado e desconstruído pela violência em seu estado mais bruto e primitivo; o outro, um corpo sarado, reconfigurado pelo sucesso prometido pelas estrelas.
Geralda, dona de casa de classe média foi encontrada morta em circunstâncias misteriosas. Seu corpo foi violentamente desfigurado, partes de seu rosto – pasmem com a brutalidade da cena – foram arrancadas e destruídas. Tudo parece sugerir um ritual de magia negra, mais um caso de sacrifício humano em honra de deuses que muitos julgavam mortos.
Um parêntese onde caberiam todos os livros já escritos pelo homem: ritual de magia negra, sacrifício humano em pleno século XXI? O que é isto?
Não se ouve um ai dos porta-vozes do multiculturalismo e da diversidade cultural. Estão muito ocupados em seus ensaios e performances. O carnaval, esta grande celebração canibal, antropofágica, se aproxima e os deuses da folia e de todas as ias aguardam os sacrifícios e oferendas de seus crentes. O sacrifício de Geralda, qualquer que seja a explicação para este caso macabro, pode ter sido apenas a continuidade em grande estilo de uma série de muitos outros sacrifícios a serem celebrados na noite escura em que se encontra a humanidade.
No mesmo dia em que Geralda foi oferecida aos deuses da destruição, na casa mais vigiada do país – mantra repetido à exaustão por Pedro Bial da Rede Globo, ele próprio um sacerdote de rituais midiáticos que presta culto a outros e perigosos deuses – depois de uma daquelas festas regadas a tudo que Mefistófeles ofereceria a Fausto em sua sedução infernal, se empastela uma das cenas mais estúpidas e estupradoras da televisão brasileira em todos os tempos.
Parece até filme de terror, em sua versão mais surrealista possível. O projeto globalista do Big Brother, em sua versão tupiniquim do BBB, chega então ao máximo no estupro moral a que submete os milhões de passivos telespectadores. O estupro televisivo, diário, meticulosamente executado, peça chave da destruição cultural e espiritual do ocidente, chega ao desplante de colocar em questão uma controvérsia falsa e paradoxalmente moral.
Afinal, a modelo Monique, uma das sisters dos brothers da 12ª edição do BBB, em sua plenitude de corpo maravilhosamente sarado, foi ou não estuprada pelo também modelo Daniel, participante expulso daquela casa de sacrifícios e oferendas, onde os mais devotados ao espírito da coisa são os mais recompensados pelos deuses globais? Ou debaixo dos edredons vigiados pelas câmeras que tudo vêm só houve carícias e o que mais poderiam fazer dois fáusticos desejosos de sucesso global? Eis a ópera bufa por excelência. O estupro perfeito. Todos violentados, sem culpa, sem punição.
Era tudo de que precisava a Record em sua luta de foice com a concorrente. Pior é ver até o delegado que cuida do caso fazendo render a presepada, quem sabe querendo faturar alguma visibilidade a que teria direito. Tudo isto aos pés do Cristo Redentor, símbolo maior da cidade maravilhosa.
E o Cristo com tudo isto? Tudo e nada.
Incidentalmente, dá para lembrar a fala de uma das personagens da novela “Fina Estampa”, na mesma semana dos corpos em transe. A engraçadinha que representa uma vidente new age – a luta para apagar o cristianismo do horizonte mental se vale de todos os recursos possíveis e inimagináveis – chega a dizer, numa das cenas em que anuncia ao mocinho de plantão uma grande decepção que lhe estaria reservada, que tudo não passava da velha luta do bem contra o mal.
Na verdade, a velha luta do bem contra o mal, ou a sua atualização semanal no dueto surrealista entre o corpo desfigurado de Geralda e o corpo sarado de Monique, chega às raias de sua superação, a ponto de colocar em cena não mais a disputa ontológica entre antípodas, e sim, e de forma cada vez mais explícita, a “luta” do mal contra o Mal.
O alcance metafísico da guerra aparente que se faz encenar ente o mal por exemplo, o falso ou mesmo verdadeiro “estupro” envolvendo dois adultos de sucesso – e o Mal – por exemplo, o significado profundo, e por isto mesmo, escamoteado, da persistência da violência mais brutal entre os homens, associada ou não a rituais de magia negra e de sacrifícios humanos em honra a deuses da destruição – só pode ser obtido com o entendimento, só possível pela graça divina, que se possa alcançar acerca do significado do evento Cristo.
A luta verdadeira, primeira e última, se dá entre o logos divino, encarnado em Cristo (outro mistério indecifrável) e as (im)possibilidades de sua negação, ainda que multiplicadas pelas vivificações forçadas de deuses condenados, mas que só ocorrem na dimensão provisória do discurso e da dor. 
  
O rosto desfigurado de Geralda desdobra-se a cada dia nos inúmeros rostos camuflados sob a sombra e meia luz, filmados de lado ou de costas, que aparecem na televisão diariamente, lamentando a si e a seus queridos vitimados, enquanto que o corpo soberbo de Monique se reflete também nos outros tantos de orgulhosos assassinos e réus confessos, que não se inibem diante das câmeras e dos repórteres solícitos, cientes da glória de 15 minutos que pode até durar mais.
Não é à toa que o Big Brother chega à sua 12ª versão.
Não è à toa que cada vez mais a violência é praticada com requintes de crueldade por aqueles que não escondem a convicção com que a praticam, como se porta vozes fossem de uma nova ordem, sem dó nem piedade.
Não è à toa que as esquerdas e o hedonismo materialista que advogam chegaram ao poder, já faz anos, e que passam como um trator sobre qualquer eventual tentativa de oposição verdadeira ou de questionamento de fundo de seus pressupostos ideológicos, para não dizer espirituais.
 Não é à toa que a escalada da violência em todos os campos é também reflexo da destruição cultural e moral deste país de Geraldas e de Moniques. 

Miguel Brito

sábado, 14 de janeiro de 2012

Not black, not white: Brown!


                                                
                                 “Se é ilusão, desligue a razão” (*)
                                                                       

Mr. Brown é um artista consagrado em sua terra e no mundo – nesta ordem, por favor. Todo ano arrasta multidões enlouquecidas pelo seu ritmo original e é um dos donos da festa na terra da alegria canibal.
Com o prestígio de que desfruta não foi difícil conseguir um espaço peculiar para os seus shows. O velho espaço do mercado abandonado às traças foi transformado, já faz algum tempo, no Museum of Rhythm, situado na parte baixa e antiga da cidade banhada pelo mar de ponta a ponta.
Assim, o deteriorado conjunto arquitetônico, em cujo centro o pátio ao ar livre se transforma no palco e platéia, acabou assumindo uma função social das mais nobres. A alegria é total, e ninguém se incomoda com preço de ingresso e outras coisas miúdas. Todo o mundo (e descolados da terra também) vai ali para curtir tudo que tem direito, sem frescura ou caretice.
Mr. Brown faz parte de uma casta privilegiada de artistas que, se quiserem, podem mostrar o peru em público, no palco ou em cima do caminhão de som, sem que ninguém reclame ou encha o saco. Junto com seus colegas da alegria sem fronteiras participa também de campanhas educativas e de combate ao abuso sexual de criancinhas e dos mais crescidinhos. O gênio das plagas é uma unanimidade e até Dilma deve admirá-lo.
O probleminha, para os chatos de plantão, talvez seja o estado geral do espaço cultural onde realiza seus shows de verão.
Visto de cima, e o Bairro de Santo Antônio oferece algumas perspectivas privilegiadas, se constata o horror daquele lugar. Os preparativos para a gandaia começaram e terminaram e sem demora já estava arrumada a arena da catarse coletiva.
Como sempre, não houve e nada indica que haverá reforma nem melhoria nenhuma naquele espaço. Afora a montagem do palco e da instalação dos equipamentos de som e luz, só se viu a velha tapeação de pintar paredes e fachadas, coisa que a cerveja solta e outras guloseimas tira de cena fácil - fácil.
Bobagem, o governo faz pior. Só a Arena Fonte Nova está garantida para Copa de 2014, o resto vai ser só retoque de asfalto manteiga e cal para disfarçar a beirada dos passeios e postes. Um abraço, porque o prefeito já foi, banda mel. 
Pensando bem, insistindo na chatice de falar a verdade, o estado do Museum of Rhythm é lastimável e seria prudente que algum órgão do governo entrasse com a grana e o investimento. Vai lá que por azar uma daquelas janelas caindo aos pedaços se precipita na cabeça de algum gringo, olha só o vexame e o constrangimento diplomático. Melhor ir pensando numa bolsa-gandaia ou então - porque não? – numa Brown-bag”.
Artista gosta mesmo é da glória e dos dividendos do sucesso. Viva o pacto caracu: quem toca e canta entra com a cara, enquanto que o povo e o poder público entram.com.
Afinal, por que não financiar a cultura através do patrocínio de iniciativas tão nobres como a do Mr. Brown? Pouco importa se no templo de Mr. Brown ninguém vai obrigado, e como só entra quem paga, parece que todo mundo sai satisfeito e com a cabeça feita. A viúva tem mesmo que garantir o circo – para quem?
Será que vão convidar Mr. Brown para mais uma campanha educativa?
Alguns outros eminentes representantes da “baianidade” estão participando da recém lançada campanha do governo do Estado, com o mote do “escolha viver sem drogas”.  Será que isto inclui viver sem a droga do carnaval e da alienação geral?
Enquanto isso, já que um mundo sem drogas custa caro e daria prejuízo para alguns  poderosos, pelo menos que se garanta o máximo de retorno financeiro, justo e merecido, ao dono da festa e do ritmo, e, quem sabe, um dia ele resolva construir um espaço todo seu, novinho em folha, sem fedor de mijo e de outros trecos, e abandone de vez o que já está abandonado numa cidade abandonada.

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Para além do anátema aos queixumes dos chatos que criticam a maior festa popular do planeta, preparada pelos batuques do Museum of Rhythm e por outros ritmos, há quem aposte numa dimensão histórico-metafísica presente na obra de Mr. Brown, o que surpreenderia até os mais entusiasmados com sua genialidade.
Afinal, é o que esboçam pensar alguns epígonos da intelectualidade canibal. Reunir num mesmo espaço cênico musical - fisicamente degradado, reabilitado na fantasia coletiva - tanto os “descendentes” de escravos, como os “herdeiros” do senhorio, numa catarse antropofágica de ritmos e cores, já seria, então, uma espécie de vingança supra-histórica, como que uma expiação dos males da diáspora e escravidão negra. Eis a síntese da “baianidade” canibal, a alternativa “meta-all” a todas as políticas inclusivistas, afirmativas ou nem tanto. Nem black, nem white: Brown! 
Vingando esta tese, resta a evidência de que a história humana em muitos dos seus aspectos cruciais ainda se encontra na infância do pré-cristianismo discursivo.
O cristianismo, a despeito dos salteadores que lhe roubam o sentido, continua sendo o último discurso reservado aos homens, ainda impronunciável pela maioria dos falantes.

(incidental)

Fausto:

É o que dizem no universo
Todos os corações sob a etérea paragem,
Cada qual em sua linguagem;
Porque na minha, eu, não?

Margarida:

Ouvindo-o assim, soa a razão;
Mas, assim mesmo é erro, ao que cismo,
Porque te falta o Cristianismo. (**)


(*) trecho da composição Tantinho, de Carlinhos Brown

(**) trecho da obra “Fausto”, de Goethe, na tradução de Jenny Klabin Segall (Ed. Itatiaia, 1997, fl. 159) 


Miguel Brito

sábado, 7 de janeiro de 2012

No ritmo do timbau


Heidegger é uma das vacas sagradas do pensamento ocidental. Isto não quer dizer que sua filosofia seja assunto exclusivamente atinente aos pensadores profissionais e que o profeta da superação da metafísica esteja inacessível nos céus do superlativo de consumo do que é servido às massas.
A lógica do pensamento heideggeriano, o modus operandi  de sua estrutura interna está aí, à vista de todos, para horror dos que se acreditam como pastores do ser de sua linguagem, hermética para muitos, tergiversardora para outros.
O fato é que o tríplice comando de sua analítica existencial, seu decreto normativo de pensar a marteladas, traduzido então nos três momentos da redução do ente ao ser, desconstrução e (re)construção, pode ser encontrado, com as devidas reconfigurações a atualizações de contexto, não só nas previsíveis produções acadêmicas de poucos mas decisivos leitores, como também nas manifestações culturais do mais amplo espectro, como, por exemplo, no famoso carnaval da Bahia.
Ora, o que é a maior festa popular do planeta senão a tradução existencial da profecia heideggeriana! O imperativo de tomar todas e de ser feliz a qualquer custo, no aqui e agora, não só atualiza a redução do ente ao ser como promete a cada folião o seu desvelamento enquanto ser-aí autêntico (dasein).
A desconstrução – dos limites, dos entraves, das peias, das tradições culturais dos antigos carnavais, da capacidade física das ruas de suportar massas destrutivas de foliões ensadecidos ou pastoreados... – é a condição mesma do agigantamento de um fenômeno midiático e empresarial que passa por cima de tudo.
A (re)construção se renova a cada ano, na forja ilusória de uma cidade feliz porque esconde a tristeza de seu aviltamento cultural e espiritual. A construção heideggeriana em Salvador é a expressão legìtima  do poder de fogo do discurso hipócrita que une artistas, donos da festa e dirigentes políticos.
Salvador enquanto imagem de uma mítica cultural genuína é um ser para morte, sem cura e sem cuidado. A repetição cansativa de um canibalismo travestido de expressão popular revela a completa inautenticidade de algo estranho a qualquer cidade que por algum momento busque qualidade de vida para os seus moradores.
Os artistas "baianos" no fundo acabam desprezando sua terra. São cúmplices de uma destruição total que transforma Salvador numa cloaca a céu aberto, lugar onde todos mijam na rua e cospem no chão.
Se "Hitler venceu a guerra" é o título de um livro, cujo autor agora escapa à memória, é porque também "Heidegger superou Gregório de Matos em Salvador".



Miguel Brito 


Triste Bahia ,  Gregório de Matos 

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Do livro "História concisa da Literatura Brasileira", de Alfredo Bosi, Editora Cultrix, 1994, SP.