“Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro”
Em recente viagem oficial a Cuba, além de defender uma maior cooperação econômica entre o Brasil e aquele país, a presidente Dilma falou ainda sobre direitos humanos, tema que, segundo ela, deve ser discutido dentro de uma “perspectiva multilateral”.
“Não é possível fazer da política de direitos humanos só uma arma de combate político-ideológico. O mundo precisa se convencer de que é algo que todos os países do mundo tem de se responsabilizar, inclusive o nosso. Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro. Nós, no Brasil, temos os nossos. Então, eu concordo em falar de direitos humanos dentro de uma perspectiva multilateral.” (palavras presidenciais)
Ano passado, num dia qualquer na maior cidade da América Latina, diante das câmeras de televisão, a polícia paulista exibiu a captura de mais um homicida. Como sempre, o autor da execução estampava o mesmo ar de superioridade e desinibição, sem o menor sinal de sentimento de culpa ou arrependimento pelo crime que cometera.
O melhor da cena é que o estudante da USP, vítima do assalto e morte, foi condenado pelo seu assassino pelo simples fato de ter reagido à violência. Morreu porque reagiu, concluiu sem dó e constrangimento o candidato à glória dos quinze minutos. Ninguém se indignou, nenhum repórter se escandalizou e o caso morreu ali mesmo.
Duas falas. Alguns falantes e muitos surdos-mudos. Fato é que as declarações separadas por algum intervalo de tempo e lugar se encontram no mesmo ponto do espaço retórico e ideológico que marca a morte da consciência minimamente crítica nestes dias bicudos em que se vive. A expressão presidencial do “quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro” parece reproduzir inversa e mimeticamente a dobradinha do “Reagiu! Então tem culpa e deve morrer”.
O “reagir” (no caso, reação à violência justificada na perspectiva revolucionária das esquerdas), então, se converte no “atirar a primeira pedra”, porque só os “reacionários” (os que reagem à mudanças, os que reagem à violência das vítimas das desigualdades sociais...) atiram a primeira pedra. Portanto, “têm telhado de vidro” e “devem” morrer porque no fundo são culpados (pelo desrespeito aos direitos humanos, pelas desigualdades sociais e etc e tal).
No entanto, o processo de inversão retórica é ainda mais aprofundado.
No discurso de Dilma, vê-se, pois, o exemplo em que o falante acusa o outro do que ele mesmo faz: “Não é possível fazer da política de direitos humanos só uma arma de combate político-ideológico”. Quando a presidente do maior país da América Latina se recusa a receber uma comissão de dissidentes cubanos em luta por direitos humanos, ou quando silencia ante o caso do perseguido político morto em greve de fome na ilha-prisão, está sim “fazendo da política de direitos humanos uma arma de combate político-ideológico”.
Portanto, a presidente acusa em abstrato o “outro”, certamente se referindo aos americanos, de está fazendo exatamente o que faz ela sem a menor desfaçatez, diante de todas as câmeras, com reprodução garantida no site oficial do governo, sem nenhum ai de algum desavisado jornalista que seja.
Eis o comando revolucionário por excelência: jogar a culpa ou a responsabilidade de si no outro. Acusar o outro daquilo que se faz.
Paralelamente a isto, o caso do assassinato na USP ilustra a situação em que o falante justifica seu próprio crime condenando sua vítima por ter reagido ao assalto por ele cometido.
Eis o comando revolucionário complementar: roubar da vítima (o outro inocente, então magicamente convertido em culpado) a inocência (justificação para a sua culpa).
A vítima inocente se converte espetacularmente em culpada pela própria morte, enquanto o criminoso culpado é inocentado com uma simples inversão retórica.
Assim, o quadro se completa no encontro de seus equivalentes complementares. Quando se joga a culpa ou a responsabilidade de si no outro, o falante se libera da própria culpa ou responsabilidade jogando-as nos ombros de outrem. Do mesmo modo, o criminoso, ao roubar da vítima (o outro inocente) a inocência (justificação para sua própria culpa), se comporta como o falante que se libera da própria culpa sugando a inocência do outro (a vítima punida porque culpada).
Toda esta tessitura discursiva não ocorre no éter nem surge do nada. Tem sua gênese histórica e seu percurso de destruição cultural e espiritual que marca o ocidente desde pelo menos a Revolução Francesa, ponto de partida simbólico de todas as demais revoluções dos séculos XIX e XX.
A desconstrução não é mera peça de masturbação filosófica ou intelectual. É tarefa histórica das mais concretas, levada adiante com muito sangue e ranger de dentes. O que pensam e ruminam os pensadores, entre brumas e acalorados debates, também escorre pelas vielas e caminhos da realidade vivida das pessoas comuns em suas labutas diárias, como a chuva que desce do morro e chega até a última dobra dos vales e buracos da planície.
É velho o truque mental dos falantes de fugir às suas responsabilidades morais e de se escudar na ilusão reconfortante de um mero denuncismo das mazelas sociais, como se muito do que acontece na vida real também não decorresse da decantação gradual e inexorável de tudo que falam e escrevem.
Arte trágica esta de se acreditar como platéia imune e alheia à malha de inversões retóricas que fazem os culpados e as vítimas dançarem, numa troca infernal de papéis, tudo ao som dos mais cínicos e inacreditáveis discursos.
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O “financiamento” da construção do Porto de Mariel, próximo a Havana, através de recursos do BNDES (de quase 1 bilhão de Reais), também demonstra que não é só da política de direitos humanos que o governo brasileiro faz “arma de combate político-ideológico”, por mais que se exercite o contorcionismo verbal na justificação econômica da iniciativa.
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Beber do próprio veneno. Políticos que em 2001 apoiaram e financiaram a greve da polícia militar na Bahia, hoje, no governo, não sabem como negociar o fim da greve atual. O povo acaba bebendo do veneno que não lhe pertence.
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Evangelho: “Não encontro nele culpa alguma. Depois de castigá-lo vou libertá-lo”
Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e disse-lhes: «Trouxestes este homem à minha presença como se andasse a revoltar o povo. Interroguei-o diante de vós e não encontrei nele nenhum dos crimes de que o acusais. Herodes tão-pouco, visto que no-lo mandou de novo. Como vedes, Ele nada praticou que mereça a morte. Vou, portanto, libertá-lo, depois de o castigar.» (Lucas 23,13-16)
Pilatos, vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.» E todo o povo respondeu: «Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!» Então, soltou-lhes Barrabás. Quanto a Jesus, depois de o mandar flagelar, entregou-o para ser crucificado (Mateus 27,24-26)
Miguel Brito

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