domingo, 13 de novembro de 2011

Nudez crucificada



Harold Bloom lembra em o “Livro de J” que nunca saímos da cena do paraíso, ainda estamos lá. Northrop Frye sugere, em “O Código dos Códigos”, que o texto bíblico é a fonte ontológica de todas as narrativas e discursos possíveis, está tudo ali, como que em arquivos compactados, prontos a serem desdobrados.

Com eles, e dizendo mais, parece que estamos sim imersos inteiros no evangelho, revivendo, consciente ou inconscientemente cada passagem ali narrada. Todas as nossas falas e saberes são como vestes provisórias, que na cena final nos serão tiradas e repartidas num lance de dados entre os soldados (face visível do poder) romanos (expressão da cultura dominante). No calvário seremos crucificados nus, como e com Ele.

Aqueles trapos que protegiam nossa nudez, nossos constructos teoréticos, ideológicos, culturais e até religiosos, terão cumprido seu papel e encaminhados à lata de lixo mais próxima.

No limite, a liberdade é garantida para se escolher de que lado se há de ser crucificado. Os gritos desesperados e provocativos de quem na cena evangélica se encontrava à esquerda d’Ele ecoam até hoje no terrível “salva-te a ti mesmo e a nós”. Ele nunca responde nos termos da provocação. Quando o faz, é Ele quem dá o tom.

“Corajosos”, como Nietzsche, apostam até o fim no confronto aberto com o Crucificado. O custo da empreitada não se mede por nenhuma métrica conhecida. “Covardes”, como Shakespeare, aceitam livremente o sentido do Texto e o espelham na linguagem simbólica de sua arte, porque sabem que a narrativa não acaba com a morte anunciada.

Como sempre, a velha metafísica, expulsa pela entrada principal, volta travestida pela porta dos fundos. Shakespeare eternizou a recorrente volta a ódios antigos quando fez Shylock falar, se referindo a Antônio, na peça O Mercador de Veneza: “Eu o odeio porque é cristão”.

Lá no fundo, o Texto ainda clama: “Cala-te e sai dele. Então o espírito impuro, sacudindo-o violentamente e soltando um grande grito, deixou-o” (Evangelho de Marcos, cap 1, 25-26).



Miguel

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