Heidegger é uma das vacas sagradas do pensamento ocidental. Isto não quer dizer que sua filosofia seja assunto exclusivamente atinente aos pensadores profissionais e que o profeta da superação da metafísica esteja inacessível nos céus do superlativo de consumo do que é servido às massas.
A lógica do pensamento heideggeriano, o modus operandi de sua estrutura interna está aí, à vista de todos, para horror dos que se acreditam como pastores do ser de sua linguagem, hermética para muitos, tergiversardora para outros.
O fato é que o tríplice comando de sua analítica existencial, seu decreto normativo de pensar a marteladas, traduzido então nos três momentos da redução do ente ao ser, desconstrução e (re)construção, pode ser encontrado, com as devidas reconfigurações a atualizações de contexto, não só nas previsíveis produções acadêmicas de poucos mas decisivos leitores, como também nas manifestações culturais do mais amplo espectro, como, por exemplo, no famoso carnaval da Bahia.
Ora, o que é a maior festa popular do planeta senão a tradução existencial da profecia heideggeriana! O imperativo de tomar todas e de ser feliz a qualquer custo, no aqui e agora, não só atualiza a redução do ente ao ser como promete a cada folião o seu desvelamento enquanto ser-aí autêntico (dasein).
A desconstrução – dos limites, dos entraves, das peias, das tradições culturais dos antigos carnavais, da capacidade física das ruas de suportar massas destrutivas de foliões ensadecidos ou pastoreados... – é a condição mesma do agigantamento de um fenômeno midiático e empresarial que passa por cima de tudo.
A (re)construção se renova a cada ano, na forja ilusória de uma cidade feliz porque esconde a tristeza de seu aviltamento cultural e espiritual. A construção heideggeriana em Salvador é a expressão legìtima do poder de fogo do discurso hipócrita que une artistas, donos da festa e dirigentes políticos.
Salvador enquanto imagem de uma mítica cultural genuína é um ser para morte, sem cura e sem cuidado. A repetição cansativa de um canibalismo travestido de expressão popular revela a completa inautenticidade de algo estranho a qualquer cidade que por algum momento busque qualidade de vida para os seus moradores.
Os artistas "baianos" no fundo acabam desprezando sua terra. São cúmplices de uma destruição total que transforma Salvador numa cloaca a céu aberto, lugar onde todos mijam na rua e cospem no chão.
Se "Hitler venceu a guerra" é o título de um livro, cujo autor agora escapa à memória, é porque também "Heidegger superou Gregório de Matos em Salvador".
Miguel Brito
Triste Bahia , Gregório de Matos
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
Do livro "História concisa da Literatura Brasileira", de Alfredo Bosi, Editora Cultrix, 1994, SP.

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