“Entre o rosto desfigurado de Geralda
e o corpo sarado de Monique”
e o corpo sarado de Monique”
A semana foi marcada pelo destaque das páginas policiais – mas toda a semana ocorre o mesmo – com o embate mercadológico entre a Globo e a Record, numa disputa que envolve milhões em cada ponto de audiência.
Fausto e Mefistófeles. Ninguém sabe ao certo quem serve a quem, mas a aparente disputa entre os dois é também a força de sua aliança. No meio, dois corpos: um desfigurado e desconstruído pela violência em seu estado mais bruto e primitivo; o outro, um corpo sarado, reconfigurado pelo sucesso prometido pelas estrelas.
Geralda, dona de casa de classe média foi encontrada morta em circunstâncias misteriosas. Seu corpo foi violentamente desfigurado, partes de seu rosto – pasmem com a brutalidade da cena – foram arrancadas e destruídas. Tudo parece sugerir um ritual de magia negra, mais um caso de sacrifício humano em honra de deuses que muitos julgavam mortos.
Um parêntese onde caberiam todos os livros já escritos pelo homem: ritual de magia negra, sacrifício humano em pleno século XXI? O que é isto?
Não se ouve um ai dos porta-vozes do multiculturalismo e da diversidade cultural. Estão muito ocupados em seus ensaios e performances. O carnaval, esta grande celebração canibal, antropofágica, se aproxima e os deuses da folia e de todas as ias aguardam os sacrifícios e oferendas de seus crentes. O sacrifício de Geralda, qualquer que seja a explicação para este caso macabro, pode ter sido apenas a continuidade em grande estilo de uma série de muitos outros sacrifícios a serem celebrados na noite escura em que se encontra a humanidade.
No mesmo dia em que Geralda foi oferecida aos deuses da destruição, na casa mais vigiada do país – mantra repetido à exaustão por Pedro Bial da Rede Globo, ele próprio um sacerdote de rituais midiáticos que presta culto a outros e perigosos deuses – depois de uma daquelas festas regadas a tudo que Mefistófeles ofereceria a Fausto em sua sedução infernal, se empastela uma das cenas mais estúpidas e estupradoras da televisão brasileira em todos os tempos.
Parece até filme de terror, em sua versão mais surrealista possível. O projeto globalista do Big Brother, em sua versão tupiniquim do BBB, chega então ao máximo no estupro moral a que submete os milhões de passivos telespectadores. O estupro televisivo, diário, meticulosamente executado, peça chave da destruição cultural e espiritual do ocidente, chega ao desplante de colocar em questão uma controvérsia falsa e paradoxalmente moral.
Afinal, a modelo Monique, uma das sisters dos brothers da 12ª edição do BBB, em sua plenitude de corpo maravilhosamente sarado, foi ou não estuprada pelo também modelo Daniel, participante expulso daquela casa de sacrifícios e oferendas, onde os mais devotados ao espírito da coisa são os mais recompensados pelos deuses globais? Ou debaixo dos edredons vigiados pelas câmeras que tudo vêm só houve carícias e o que mais poderiam fazer dois fáusticos desejosos de sucesso global? Eis a ópera bufa por excelência. O estupro perfeito. Todos violentados, sem culpa, sem punição.
Era tudo de que precisava a Record em sua luta de foice com a concorrente. Pior é ver até o delegado que cuida do caso fazendo render a presepada, quem sabe querendo faturar alguma visibilidade a que teria direito. Tudo isto aos pés do Cristo Redentor, símbolo maior da cidade maravilhosa.
E o Cristo com tudo isto? Tudo e nada.
Incidentalmente, dá para lembrar a fala de uma das personagens da novela “Fina Estampa”, na mesma semana dos corpos em transe. A engraçadinha que representa uma vidente new age – a luta para apagar o cristianismo do horizonte mental se vale de todos os recursos possíveis e inimagináveis – chega a dizer, numa das cenas em que anuncia ao mocinho de plantão uma grande decepção que lhe estaria reservada, que tudo não passava da velha luta do bem contra o mal.
Na verdade, a velha luta do bem contra o mal, ou a sua atualização semanal no dueto surrealista entre o corpo desfigurado de Geralda e o corpo sarado de Monique, chega às raias de sua superação, a ponto de colocar em cena não mais a disputa ontológica entre antípodas, e sim, e de forma cada vez mais explícita, a “luta” do mal contra o Mal.
O alcance metafísico da guerra aparente que se faz encenar ente o mal – por exemplo, o falso ou mesmo verdadeiro “estupro” envolvendo dois adultos de sucesso – e o Mal – por exemplo, o significado profundo, e por isto mesmo, escamoteado, da persistência da violência mais brutal entre os homens, associada ou não a rituais de magia negra e de sacrifícios humanos em honra a deuses da destruição – só pode ser obtido com o entendimento, só possível pela graça divina, que se possa alcançar acerca do significado do evento Cristo.
A luta verdadeira, primeira e última, se dá entre o logos divino, encarnado em Cristo (outro mistério indecifrável) e as (im)possibilidades de sua negação, ainda que multiplicadas pelas vivificações forçadas de deuses condenados, mas que só ocorrem na dimensão provisória do discurso e da dor.
O rosto desfigurado de Geralda desdobra-se a cada dia nos inúmeros rostos camuflados sob a sombra e meia luz, filmados de lado ou de costas, que aparecem na televisão diariamente, lamentando a si e a seus queridos vitimados, enquanto que o corpo soberbo de Monique se reflete também nos outros tantos de orgulhosos assassinos e réus confessos, que não se inibem diante das câmeras e dos repórteres solícitos, cientes da glória de 15 minutos que pode até durar mais.
Não é à toa que o Big Brother chega à sua 12ª versão.
Não è à toa que cada vez mais a violência é praticada com requintes de crueldade por aqueles que não escondem a convicção com que a praticam, como se porta vozes fossem de uma nova ordem, sem dó nem piedade.
Não è à toa que as esquerdas e o hedonismo materialista que advogam chegaram ao poder, já faz anos, e que passam como um trator sobre qualquer eventual tentativa de oposição verdadeira ou de questionamento de fundo de seus pressupostos ideológicos, para não dizer espirituais.
Não é à toa que a escalada da violência em todos os campos é também reflexo da destruição cultural e moral deste país de Geraldas e de Moniques.
Miguel Brito

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