“Se é ilusão, desligue a razão” (*)
Mr. Brown é um artista consagrado em sua terra e no mundo – nesta ordem, por favor. Todo ano arrasta multidões enlouquecidas pelo seu ritmo original e é um dos donos da festa na terra da alegria canibal.
Com o prestígio de que desfruta não foi difícil conseguir um espaço peculiar para os seus shows. O velho espaço do mercado abandonado às traças foi transformado, já faz algum tempo, no Museum of Rhythm, situado na parte baixa e antiga da cidade banhada pelo mar de ponta a ponta.
Assim, o deteriorado conjunto arquitetônico, em cujo centro o pátio ao ar livre se transforma no palco e platéia, acabou assumindo uma função social das mais nobres. A alegria é total, e ninguém se incomoda com preço de ingresso e outras coisas miúdas. Todo o mundo (e descolados da terra também) vai ali para curtir tudo que tem direito, sem frescura ou caretice.
Mr. Brown faz parte de uma casta privilegiada de artistas que, se quiserem, podem mostrar o peru em público, no palco ou em cima do caminhão de som, sem que ninguém reclame ou encha o saco. Junto com seus colegas da alegria sem fronteiras participa também de campanhas educativas e de combate ao abuso sexual de criancinhas e dos mais crescidinhos. O gênio das plagas é uma unanimidade e até Dilma deve admirá-lo.
O probleminha, para os chatos de plantão, talvez seja o estado geral do espaço cultural onde realiza seus shows de verão.
Visto de cima, e o Bairro de Santo Antônio oferece algumas perspectivas privilegiadas, se constata o horror daquele lugar. Os preparativos para a gandaia começaram e terminaram e sem demora já estava arrumada a arena da catarse coletiva.
Como sempre, não houve e nada indica que haverá reforma nem melhoria nenhuma naquele espaço. Afora a montagem do palco e da instalação dos equipamentos de som e luz, só se viu a velha tapeação de pintar paredes e fachadas, coisa que a cerveja solta e outras guloseimas tira de cena fácil - fácil.
Bobagem, o governo faz pior. Só a Arena Fonte Nova está garantida para Copa de 2014, o resto vai ser só retoque de asfalto manteiga e cal para disfarçar a beirada dos passeios e postes. Um abraço, porque o prefeito já foi, banda mel.
Pensando bem, insistindo na chatice de falar a verdade, o estado do Museum of Rhythm é lastimável e seria prudente que algum órgão do governo entrasse com a grana e o investimento. Vai lá que por azar uma daquelas janelas caindo aos pedaços se precipita na cabeça de algum gringo, olha só o vexame e o constrangimento diplomático. Melhor ir pensando numa bolsa-gandaia ou então - porque não? – numa “Brown-bag”.
Artista gosta mesmo é da glória e dos dividendos do sucesso. Viva o pacto caracu: quem toca e canta entra com a cara, enquanto que o povo e o poder público entram.com.
Afinal, por que não financiar a cultura através do patrocínio de iniciativas tão nobres como a do Mr. Brown? Pouco importa se no templo de Mr. Brown ninguém vai obrigado, e como só entra quem paga, parece que todo mundo sai satisfeito e com a cabeça feita. A viúva tem mesmo que garantir o circo – para quem?
Será que vão convidar Mr. Brown para mais uma campanha educativa?
Alguns outros eminentes representantes da “baianidade” estão participando da recém lançada campanha do governo do Estado, com o mote do “escolha viver sem drogas”. Será que isto inclui viver sem a droga do carnaval e da alienação geral?
Enquanto isso, já que um mundo sem drogas custa caro e daria prejuízo para alguns poderosos, pelo menos que se garanta o máximo de retorno financeiro, justo e merecido, ao dono da festa e do ritmo, e, quem sabe, um dia ele resolva construir um espaço todo seu, novinho em folha, sem fedor de mijo e de outros trecos, e abandone de vez o que já está abandonado numa cidade abandonada.
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Para além do anátema aos queixumes dos chatos que criticam a maior festa popular do planeta, preparada pelos batuques do Museum of Rhythm e por outros ritmos, há quem aposte numa dimensão histórico-metafísica presente na obra de Mr. Brown, o que surpreenderia até os mais entusiasmados com sua genialidade.
Afinal, é o que esboçam pensar alguns epígonos da intelectualidade canibal. Reunir num mesmo espaço cênico musical - fisicamente degradado, reabilitado na fantasia coletiva - tanto os “descendentes” de escravos, como os “herdeiros” do senhorio, numa catarse antropofágica de ritmos e cores, já seria, então, uma espécie de vingança supra-histórica, como que uma expiação dos males da diáspora e escravidão negra. Eis a síntese da “baianidade” canibal, a alternativa “meta-all” a todas as políticas inclusivistas, afirmativas ou nem tanto. Nem black, nem white: Brown!
Vingando esta tese, resta a evidência de que a história humana em muitos dos seus aspectos cruciais ainda se encontra na infância do pré-cristianismo discursivo.
O cristianismo, a despeito dos salteadores que lhe roubam o sentido, continua sendo o último discurso reservado aos homens, ainda impronunciável pela maioria dos falantes.
(incidental)
Fausto:
É o que dizem no universo
Todos os corações sob a etérea paragem,
Cada qual em sua linguagem;
Porque na minha, eu, não?
Margarida:
Ouvindo-o assim, soa a razão;
Mas, assim mesmo é erro, ao que cismo,
Porque te falta o Cristianismo. (**)
(*) trecho da composição Tantinho, de Carlinhos Brown
(**) trecho da obra “Fausto”, de Goethe, na tradução de Jenny Klabin Segall (Ed. Itatiaia, 1997, fl. 159)
Miguel Brito

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